Ganhando dinheiro enquanto viaja, alguns podem dizer que Antonio Pedro Moreira está vivendo um sonho de muitas pessoas. Ele é um escritor de publicação própria que largou o emprego como um psicólogo para viajar ao redor do mundo. Ele passou mais de 9 meses pedindo carona por 20.000 km no continente euroasiático. Ele pedalou 15.000 km pela África, um continente famoso por seu calor escaldante. Ele estava a 2km de Osama Bin Laden 12 horas antes de ele ser baleado no Paquistão. Ele estava na Síria antes da revolução. Esteve uma semana no Iraque sem um centavo, 11 dias no Irã com 20 euros.

É óbvio que um cara como esse deve ter inúmeras histórias para compartilhar. Seus livros estão disponíveis para compra na sua loja Jumpseller: daquiali.com.

Antonio Pedro Moreira - Autor de Daqui Ali

Sua viagem pela África durou 15 meses. Como você conseguiu colocar tantas experiências em um só livro?

Um dos meus maiores desafios juntando as histórias foi manter o livro curto, ou não tão grande, pelo menos. Enquanto eu viajo, tento escrever sobre isso todos os dias. Eu posso não escrever todos os dias, mas a cada 3 dias, no mínimo, eu tento escrever o que acontece comigo e como me senti sobre certas situações. No final de uma viagem como esta, eu tenho cerca de 800 páginas. Mas para tornar tudo isso legível, eu tenho que cortar algumas partes, o que pode ser difícil, já que todas as 800 páginas são importantes. Não quero comprometer o que eu escrevo só para vender, mas por outro lado, também quero levar meu livro para o mundo e que as experiências sejam compartilhadas. Mas se as pessoas podem escrever biografias em 500 páginas, eu deveria ser capaz de escrever sobre uma viagem em menos, não é?

Sim, mas por outro lado, você provavelmente tem mais experiências durante esse tempo do que algumas pessoas têm em suas vidas todas.

Haha não, eu não diria que é tanto assim. Embora eu esteja em uma situação onde acontecem mais coisas fora do normal. Mas eu acho que se você tem toda a sua atenção e se você pensa sobre o que está acontecendo, você sempre encontrará material para escrever, não importa onde você estiver. Porque a vida é muito interessante e as pessoas podem ser muito interessantes também.

Eu tenho uma teoria que faz um pouco de sentido sobre isso, ou como viajar te faz viver mais. Se eu viajar por um ano, eu vivo o mesmo tanto de tempo do que ficando em Portugal durante esse ano. Eu acredito que a vida é feita de memórias. Se a vida é feita de memórias, quanto mais memórias você tem, mais vida você tem e mais você viveu. Agora quando você viaja, tudo é tão fora do normal todos os dias, isso é muito memorável. Sabe, até hoje posso pensar no passado e lembrar de dias específicos.

Você estudou e trabalhou como psicólogo e viveu uma vida normal antes disso. Devo admitir que estou com um pouco de inveja, mas como surgiu essa ideia? E todas as pessoas seriam capazes de fazer isso?

Eu diria que todos podem fazê-lo. Eu não sou especial em nenhum sentido. Tudo o que você pode sentir agora poderia ser semelhante a o que eu senti quando fui à Índia por duas semanas. Quando cheguei lá, eu olhei em volta e notei que estava rodeado de pessoas como eu, com uma exceção, a minha viagem era de 2 semanas, as deles eram de 6 meses ou mais. Quando passei um tempo com eles, entendi que eles eram pessoas comuns, de carne e osso, assim como eu. Foi quando eu percebi que todo mundo pode fazer isso, qualquer um pode viver assim. Você só precisa tomar a decisão e ir. Então foi isso que eu fiz e nunca mais olhei para trás.

Apenas tomou uma decisão e foi, parece fácil, mas e o planejamento, dinheiro, idioma etc.?

Este é um ponto que eu sempre tento explicar, a única diferença entre mim e a pessoa que não foi, é que eu fui e a outra pessoa não. Pode-se argumentar que eu tinha mais desejo de ir e isso provavelmente é verdade, mas agora eu sei que todo mundo pode fazer isso. Claro, pessoas diferentes se divertirão mais ou menos, dependendo de quão exigente elas são com as coisas. Mas se você quiser ir, eu garanto que você pode.

Então se você tem habilidades sociais ou inteligência emocional, isso pode ajudá-lo, mas está longe de ser primordial. Hoje em dia com couchsurfing e coisas assim, você não precisa mais de tanto dinheiro. Você pode até mesmo viajar sem dinheiro algum, se você se oferecer para trabalhar ou algo assim.

OK, mas em sua viagem de Portugal para África, você ficou lá por 15 meses, quanto dinheiro você gastou?

Nesta viagem não tenho certeza, e agora é tarde demais para voltar atrás e dizer que foi uma pena. Mas eu acho que gastei cerca de 7000 euros. Mas na minha viagem à Ásia, onde permaneci por mais de nove meses, gastei cerca de 3000 Euros. E isso já contando com vistos, câmera, seguro, comida e bebida e despesas de viagem. Cerca de 1000 desses, gastei ficando bêbado e em festas. Então é possível fazê-lo em menos, mas para mim, ficar bêbado e festejar é parte de viajar. Eu gosto de me divertir e isso faz você conhecer muitas pessoas diferentes.

Sobre o planejamento, quanto é planejado antes de uma viagem dessas?

Eu sempre tento planejar o destino final, por exemplo em minha viagem mais recente, para a África, eu sabia que eu queria chegar à África do Sul, mas como eu chegaria lá mudou muito durante a viagem. Outro exemplo é durante a minha primeira viagem, onde fiz um desvio pela Síria e Líbano, porque eu queria essa experiência. É claro que tenho alguns planos e metas definidas antes de ir, mas eu não ficar preso a eles. Para mim é importante ter um plano que ainda me deixa aberto a experiências.

Melhores e piores experiências até agora?

É difícil de dizer... já que você se depara com tantas experiências de tipos tão diferentes. Mas eu tive um grande momento no Paquistão, tem esse dia que eu me lembro bem. Eu estava me hospedando com esse cara legal do Paquistão. Ele não sabia ler ou escrever, mas ele me contou histórias dos anos 1980, quando ele era um hippie em Ibiza, vendendo colares feitos à mão na praia. Tarde da noite, um dia, ele perguntou se eu queria ir com ele para alimentar alguns cachorros de rua. Andamos por alguns campos e atravessamos um monte de luzes. No caminho, encontramos o amigo dele e andamos juntos. Uma hora depois, eu me encontro sentado no meio de um campo nas montanhas do Paquistão, fumando um baseado com dois homens de meia-idade. Tão longe do normal, mas ainda me senti muito natural.

Hmm, mas eu não sei, tive uma experiência muito ruim que acabou dando certo no Gabão, localizado na costa oeste da África. Eu estava andando de bicicleta pela floresta ao lado de elefantes e veados, o que era incrível. Eu também passei por uma gorila que estava a uns 5 metros de distância. De qualquer forma, acabei encontrando esta tribo ou família no meio da floresta. Eles me convidaram para fazer parte desta cerimônia xamânica. De alguma forma eu acabei sendo o xamã. Então eles me deram um monte de drogas, e eu fiquei totalmente doido por 14 horas. Essa realmente foi uma experiência horrível. Depois que terminou, eu fiquei um pouco abalado por cerca de 4 meses, pensando sobre a ideia de morrer. Mas depois que tudo passou, eu percebi que foi uma grande experiência, porque me fez sentir um pouco mais confortável com a noção de morte. Então foi uma experiência ruim, que acabou se tornando boa.

Outro ótimo momento foi quando eu peguei carona no Irã. Uns caras me pegaram. Eles não falavam nada de inglês, mas falavam em persa e eu respondia em Português. Eles pagaram-me o almoço, e de alguma forma me convenceram a ficar na casa deles. Eles tinham um grande estábulo com 21 cavalos e toda a vila veio falar comigo. Passamos a noite toda fumando baseados e bebendo vodka caseira, porque o álcool é ilegal no Irã. No dia seguinte acordamos e eles me dão esta pulseira muito legal e uma carona até a rodoviária. Foi uma experiência muito original e legal, que eu sou fico feliz por ter tido a oportunidade de vivenciar.

Quando viaja assim, como você resolve as barreiras linguísticas. Você sempre encontra pessoas que falam inglês, ou o que você faz? Não se torna um pouco problemático não ser entendido?

Não, em alguns países é mais fácil do que outros, mas eu percebi que depois de alguns meses na estrada você meio que desenvolve esse talento para expressar-se com as mãos e com a sua cara. Isso não faz milagres, mas ajuda bastante. É claro que nunca saberei as conversas que eu perdi porque eu não falo uma determinada língua, mas até agora eu me diverti muito com pessoas com as quais eu não partilhava um idioma. E ao longo do caminho você meio que começa a entender algumas palavras e expressões.

Os livros que você publicou na sua loja virtual, você os publicou totalmente sozinho, não é?

Sim. Deu trabalho, mas não foi tão difícil, porque eu gosto de fazer tudo isso. Eu gosto do processo, não só de escrever ou viajar, mas da promoção, em compor o livro e outras coisas. É meu projeto, sabe, e é legal vê-lo tornar-se uma realidade. A publicação em si não foi tão problemática, eu só precisei escrever o livro e então eu tenho esse amigo designer gráfico que me ajudou muito com o design. Isso também significou que eu paguei por ele, 6500 Euros por tudo isso. Mas ele se pagou muito rapidamente, então tudo bem. Para promovê-lo, também não foi tão difícil fazer por mim mesmo. Então o conceito do livro é bastante singular, especialmente aqui em Portugal, então isso ajudou muito.

Agora, os livros de suas viagens são as únicas coisas que você vende na sua loja virtual, você acha que é possível começar a vender outras coisas lá também? Tipo algumas coisas legais que você pegou enquanto viajava ou algo assim?

Não sei, não pensei muito sobre isso. Vou marcar uma reunião comigo mesmo e pensar sobre isso.

Quão importante é para você ter sua própria loja virtual, ao invés de somente uma presença nas redes sociais.

Fica mais fácil já que eu posso direcionar as pessoas e eles podem fazer a compra lá mesmo. Eu percebo que é mais fácil quando é o primeiro "boom". O boom do livro dura por cerca de um ano. Então quando as pessoas buscam no google o livro ou meu nome e vem parar na loja ajuda muito a eles comprarem. E as redes sociais também ajudam muito. Mas se eu tenho um lugar como Jumpseller, posso direcioná-los para lá.

Você em sua última viagem visitou 22 países, você sabe em quantos países já esteve no total?

Eu acho que já são 80 ou 83 agora, então já risquei quase metade dos países da lista haha.